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Eduardo Sá
 
 
Muitos filhos são objetivos curriculares e projetos de carreira para os seus pais. E isso não pode ser! As crianças precisam de errar para aprender. E, portanto, não é por se ser, hoje, um "pequeno génio" que, amanhã, se será uma pessoa perseverante e afoita e um inequívoco vencedor. Ou seja, não é por se ganhar nos 100 metros que se tem "pulmão" para a maratona. Sendo assim, não faz nada mal que as crianças comecem, de pequeninas, a ficar com um friozinho na barriga antes de cada prova. E que vacilem e tremam e se engasguem ou se enganem. Mesmo que seja assim, os exames fazem bem às crianças. Funcionam, de certo modo, como as histórias de arrepios. Trazem algum medo para dentro delas, é verdade, mas obrigam-nos a não fugir dele. Os medos nunca são estúpidos. E são - sempre! - um exercício de sabedoria. Mesmo que comuniquem connosco de uma forma encriptada e pareçam ser qualquer coisa entre o esquisito e o bizarro.

Seja como for, as crianças mais frágeis não são aquelas que ficam cheias de tremeliques, quando têm medo, mas todas as outras que os evitam, por mais que pareçam estar acima deles. Por outras palavras: a melhor forma de ficar preso a um medo é fugir dele. Por isso mesmo, eu gosto que as crianças façam  exames. E que "vão a jogo" em campeonatos  nacionais (diferentes, em quase tudo, do "jogar em casa" a que elas estão, invariavelmente, habituadas). Assim quem esteja em avaliação sejam, muito mais, as pessoas que as ensinam, quem promove o ensino, e quem o acarinha e o acalenta na retaguarda. Muito mais do que, propriamente, os alunos. De qualquer forma, crianças habituadas a afrontar o medo e a ficar, primeiro, um bocadinho "burras" diante dele e, logo a seguir (mesmo mordendo a língua), aprendendo a soltar-se e a pensar, são crianças que se tornam mais robustas, mais afoitas e, já agora, mais humildes. Devia, no entanto, ser proibido, nestas alturas em que os exames se avizinham, que os professores falem mais deles do que da importância das crianças se engasgarem, para que, depois, ousem vencer. 

E devíamos proibir que as escolas vejam num exame a oportunidade de mostrarem ao mundo que elas, as escolas, são "sobredotadas" e que os seus meninos serão mais ou menos geniais. Nem que isso se faça inventando dislexias e outros presumíveis "defeitos" (das crianças, pois claro), para pôr batotice onde os alunos põem respeito e lealdade. E devia ser proibido que as escolas escondam os meninos que tiveram níveis negativos, em vez de mostrarem como foram capazes de os recuperar da negativa até aos bons resultados. Porque desse modo, e pela forma como mostram que sabem aprender com os seus erros, ensinem a todas as crianças o bom exemplo de nunca desistir, demonstrando, inclusive, que os erros se consertam com parcerias de sucesso.
 
E devia, ainda, proibir-se que os pais perguntem, todos os dias, como correu a escola e como está a preparação para os exames, como se mais nada, na vida das crianças, valesse a pena. E que, nestas alturas, se recorra a explicações e mais explicações como se, muito mais do que a forma como aprendem, e o bom uso que farão com tudo isso, contasse a nota, só a nota, e nada mais. E, finalmente, devia proibir-se que os pais perguntem às crianças, a propósito de um exame, se estão com medo, ou que lhes digam que não vale a pena ter medo ou que deem gotinhas ou chás de ervas medicinais para o medo. Chega de tanto medo! Os melhores ansiolíticos das crianças são sempre os pais, quando não se transformam em gelatina da Royal, diante dos medos dos filhos. E o pior dos medos dos pais é o medo que eles parecem ter quando, diante de um filho assustadote, encontram uma oportunidade para lhe dizerem, pelos seus atos: "Socorro! Não estejas com medo! Porque já percebeste como eu me assusto e, depois, não sou capaz!".
Eduardo Sá

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